
Entre dezembro de 2006 e março de 2007, o bairro do Curió-Utinga, em Belém, viveu dias de medo. Três adolescentes foram encontrados mortos nas matas próximas à Estrada da Ceasa, em crimes marcados por violência e crueldade. Até que a polícia desvendasse a autoria, o mistério alimentava boatos e incertezas, enquanto famílias inteiras buscavam respostas. O responsável, identificado meses depois, foi André Barbosa, que ficaria conhecido em todo o país como o “Monstro da Ceasa” ou “Maníaco da Ceasa”.
O caso só foi esclarecido após uma longa investigação da Polícia Civil. À época, uma força-tarefa reuniu delegados de três distritos para avançar na apuração. As semelhanças entre as mortes – o perfil das vítimas, a forma como os corpos eram deixados na mata e até o detalhe da posição das sandálias – revelaram o padrão de um assassino em série.
“Assassinos em série agem assim e deixam sua assinatura, que é a marca deles”, explicou a promotora de Justiça Rosana Cordovil durante o julgamento, em 2008.
As vítimas foram José Raimundo Oliveira, Adriano Augusto Nogueira Martins e Ruan Valente Sacramento, todos com idade entre 10 e 13 anos. Barbosa se aproximava dos meninos em lan houses da capital, espécies de cybercafé, conquistava a confiança e os atraía até a área de mata. Ali, os violentava e os asfixiava até a morte. Em um dos crimes, chegou a participar das buscas ao lado de vizinhos e familiares, reforçando a frieza que marcava seu comportamento.

O criminoso foi desmascarado ao tentar fazer uma quarta vítima, em 2007. O garoto conseguiu escapar e se tornou peça-chave nas investigações. André deixou o celular cair na fuga, o que ajudou a polícia a confirmar as suspeitas que já vinham sendo levantadas havia quase um ano.
Em novembro de 2008, ele foi condenado a 104 anos de prisão por homicídio triplamente qualificado, ocultação e vilipêndio de cadáver, além de atentado violento ao pudor.
Detalhes que deixaram pista
André negou ser o autor dos crimes, embora tenha inicialmente admitido os abusos sexuais e as mortes das vítimas. Em juízo, contudo, confessou apenas o ataque à última criança (dos três citados anteriormente). Dois dos crimes apresentavam semelhanças marcantes: a posição dos corpos dos meninos e das sandálias que eles usavam; e o local em que foram mortos, dentro da mata, a uns 200 metros da pista.
As investigações revelaram que as vítimas, todos adolescentes, estudavam na mesma escola, moravam no bairro do Guamá, frequentavam a mesma lan house e tinham perfil socioeconômico semelhante. Essas informações ajudaram a polícia a direcionar a investigação, descartando hipóteses e evitando novos ataques do criminoso. Na tentativa de atacar a quarta vítima, André errou o golpe, permitindo que o garoto escapasse, e acabou deixando cair seu celular no local. Com isso, a polícia, que já o procurava havia 11 meses, conseguiu finalmente prendê-lo.
“Liberdade”: a vítima da vez
Mesmo condenado, Barbosa voltou a pedir liberdade. Em 2013, as Câmaras Criminais Reunidas do Tribunal de Justiça do Pará (TJE) negaram o pedido de habeas corpus liberatório para André Barboza. Além da morte dos três meninos, ele também respondia a uma ação penal por violência sexual contra outro menor, um garoto de 11 anos. O crime teria ocorrido também em 2008. Ele foi denunciado por abusar sexualmente do adolescente com iniciais “J.C.G”; o caso teria acontecido de forma semelhante aos ataques contra outros três meninos.
Ele pedia para responder ao processo em liberdade, alegando constrangimento ilegal por excesso de prazo na prisão cautelar. Contudo, o habeas corpus foi negado pela Corte, dada a periculosidade do réu e também a existência da outra condenação.
A defesa de André Barboza alegou que diversos fatores atrasaram a audiência de instrução e julgamento do processo, incluindo a instauração de um incidente de sanidade mental, a ausência de testemunhas convocadas pelo Ministério Público e sucessivas remarcações, além de pedidos da própria defesa, como a suspensão do caso em 2010 até a apreciação de recurso contra o exame de insanidade, julgada apenas dois anos depois. A última tentativa de audiência, prevista para maio de 2013, não ocorreu devido à falta do acusado e de testemunhas da acusação.
Ao analisar o pedido de habeas corpus, o desembargador Rômulo Nunes, relator do caso nas Câmaras Criminais Reunidas, ressaltou “a gravidade dos crimes”, afirmando que a manutenção da prisão preventiva é necessária para garantir a ordem pública. Ele lembrou que Barboza já cumpria pena de 104 anos por assassinatos de outros três adolescentes nas matas da Ceasa.
O que se sabe até aqui é que… 15 anos depois…
Em julho de 2023, 15 anos depois da condenação, André Barbosa deixou o sistema prisional. Beneficiado pela progressão de pena, ele passou a cumprir a sentença em regime aberto, monitorado pela Central Integrada de Monitoramento Eletrônico (CIME). A decisão causou indignação em parte da população, já que o caso marcou profundamente a memória da cidade.
Exames comprovariam que André Barbosa possuía (possui) uma “leve psicopatia que não afeta o usufruto de suas faculdades mentais, mas atesta periculosidade e reincidência elevadas”. O “Monstro da Ceasa” permanece como um dos episódios mais brutais da crônica policial do Pará, lembrado tanto pela violência dos crimes quanto pelo impacto que deixou em famílias e na sociedade belenense.
🟦 Linha do tempo do caso — clara, objetiva e cronológica
📌 2006 — Primeiro desaparecimento
- Dezembro: adolescentes começam a desaparecer na área do Curió-Utinga, perto da Estrada da Ceasa.
📌 Dezembro/2006 – Março/2007 — Três corpos encontrados
- Três meninos, de 10 a 13 anos, são encontrados mortos na mata.
- Padrões chamam atenção: posição dos corpos e sandálias iguais nos casos.
📌 Início de 2007 — Polícia monta força-tarefa
- Delegados de três distritos passam a trabalhar juntos.
- Investigação identifica ligação entre as vítimas: mesma escola, lan house e bairro.
📌 Março de 2007 — O criminoso erra
- André Barbosa tenta atrair uma quarta vítima.
- O garoto escapa.
- O assassino deixa cair o celular — pista decisiva.
📌 2007 — Prisão de André Barbosa
- Com o celular e o relato da vítima sobrevivente, a polícia confirma as suspeitas.
- André é preso e interrogado.
📌 2008 — Julgamento
- Em depoimentos, André nega alguns homicídios, mas admite abusos.
- Promotoria aponta assinatura típica de assassino em série.
- Novembro: é condenado a 104 anos de prisão.
📌 2013 — Pedido de liberdade negado
- Defesa alega excesso de prazo no processo.
- TJE nega habeas corpus devido à alta periculosidade.
- Ele responde ainda a outro caso de violência sexual contra um menino de 11 anos.
📌 2010–2013 — Processo é marcado por atrasos
- Incidente de sanidade mental.
- Ausência de testemunhas.
- Suspensões pedidas pela defesa.
- Novas remarcações de audiência.
📌 Julho de 2023 — Saída da prisão
- Após 15 anos, André obtém progressão de regime.
- Passa a cumprir pena em liberdade monitorada pela CIME.
- Notícia gera forte repercussão em Belém.
📌 Hoje
- O caso é lembrado como um dos mais brutais da história recente do Pará.
- Laudos apontam traços de psicopatia e risco elevado de reincidência.
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