
Torturados, espancados e mortos por estrangulamento, os irmãos Ubiraci e Uiraquitã Borges Novelino, em 2007, fazem parte de um dos episódios mais chocantes da crônica policial paraense. O caso, que teve como mandante o empresário João Batista Ferreira Bastos, conhecido como “Chico Ferreira”, voltou ao noticiário em 2024 após a morte do próprio mandante.
No dia 25 de abril de 2007, os irmãos Novelino saíram para uma reunião de negócios na sede da Service Brasil, empresa de Chico Ferreira, no bairro de Batista Campos, em Belém. A promessa era resolver uma dívida milionária, cerca de R$4 milhões, que o empresário devia às vítimas. O encontro, porém, era uma armadilha.
Antes mesmo de começar a suposta reunião planejada por Chico, os irmãos acabaram encontrando a morte. Neste dia seria a devida quitação desde que os irmãos empresários levassem os cheques que acabaram roubados no evento criminoso, dando assim a “perfeita” quitação.
Todos os funcionários da empresa foram avisados de que o expediente encerraria uma hora mais cedo e que os irmãos teriam que chegar em um carro que não fosse o comumente utilizado por eles para não chamar atenção.
De acordo com as investigações, os irmãos foram amarrados, amordaçados, espancados e estrangulados com mangueiras de borracha dentro da própria empresa. Os corpos foram então colocados em tambores metálicos cheios de concreto, presos a correntes e atirados na Baía do Guajará, a cerca de 17 metros de profundidade. O plano, segundo a polícia, foi minuciosamente arquitetado para simular um “crime perfeito”.
A Descoberta do Crime e as Investigações
A farsa começou a ruir quando, segundo as investigações da época, o pai das vítimas, o empresário Ubiratan Lessa Novelino, sentiu a falta dos filhos que tinham uma rotina de contato várias vezes no dia e naquele 25 de abril sumiram. Apenas se sabia que eles teriam ido a uma reunião onde tratariam de débitos contraídos pelo empresário Chico Ferreira.
Tudo devidamente planejado, o grupo criminoso, após o sumiço dos empresários, chegou até a colaborar com o trabalho até que a “casa começou a cair” quando os delegados Gilvandro Furtado, Sérvulo Cabral e Evandro Bradock, que conduziam o caso, chegaram a ponta do “fio da meada”, começando a desvendar o crime.
Chico contou com a ajuda do radialista Luiz Araújo. O desmonte de um carro no sítio “Gueri-Gueri”, de Luiz, no distrito do Murinin, levou a polícia a prendê-lo uma vez que o carro, um Corola preto, era o mesmo que os irmãos emprestaram para irem se encontrar com Chico Ferreira.
No dia 7 de maio de 2007, uma força-tarefa da Polícia Civil, Corpo de Bombeiros e Marinha localizou os corpos dos irmãos, encerrando uma semana de buscas e confirmando a brutalidade do crime.
O “encaixe” veio: uma das peças de jogo se ajustou. O empresário Chico Ferreira, com crises de ansiedade por conta do noticiário, buscou atendimento em uma clínica no bairro de Nazaré onde acabou preso.
Contratados para serem os executores do duplo homicídio, o ex-policial Sebastião Cardias Alves se apresentou na sede da Divisão de Repressão e Combate ao Crime Organizado (DRCO), acompanhado do juiz Paulo Jussara. A Polícia Civil com uma rede de informantes 24h, prendeu em Fortaleza o ex-fuzileiro naval José Augusto Marroquim de Sousa, que já tinha deixado Belém.
A Busca pelos Corpos e a Comprovação do Crime
E aí, só faltava os corpos para a comprovação final, uma vez que a defesa dos suspeitos alegava que “sem corpo não há crime”. Contudo, as evidências como o sangue dos irmãos no chão da empresa Service Brasil aliado a uma imagem de câmera de segurança mantinham a polícia a desvendar a parte final do crime.
No dia 7 de maio de 2007, após uma semana de intensa procura, os corpos de Ubiraci e Uraquitã Borges Novelino foram encontrados após uma força tarefa que incluiu mergulhadores especiais, Capitania dos Portos, Marinha do Brasil, Corpo de Bombeiros, Polícia Militar e Polícia Civil.
Julgamento e Condenações
2008 a 2018 – O julgamento e as condenações
Seis meses depois, começava a batalha no tribunal. O caso mobilizou o sistema de Justiça por mais de uma década, com sucessivas audiências e tentativas de anulação. O julgamento, presidido pelo juiz Raimundo Moisés Alves Flexa, teve atuação marcante do promotor Paulo Godinho.
Em 2018, veio a sentença definitiva: Chico Ferreira, o radialista Luiz Araújo, o ex-policial civil Sebastião Cardias Alves e o ex-fuzileiro naval José Augusto Marroquim de Sousa foram condenados em regime fechado em presídio de segurança máxima a 80 anos de reclusão.
Os quatro foram enviados a diferentes unidades prisionais. Chico Ferreira e Marroquim seguiram para o Presídio de Segurança Máxima em Americano; Luiz Araújo foi transferido para Campo Grande (MS); e Sebastião Cardias, por ser ex-servidor, ficou no Presídio Anastácio das Neves, em Belém.
Mortes entre os Condenados
2010 – Primeira morte entre os condenados
O primeiro a morrer foi o ex-radialista Luiz Araújo, em 2010, vítima de complicações de saúde enquanto cumpria pena em uma penitenciária de segurança máxima em Campo Grande, no Mato Grosso do Sul.
2023 – Segunda perda no grupo de condenados
Em janeiro de 2023, o ex-policial civil Sebastião Cardias Alves também faleceu, em um hospital, após agravamento do estado de saúde. Ele cumpria pena no presídio Anastácio das Neves, em Belém.
2024 – Prisão domiciliar e morte do “chefão” Chico Ferreira
Em abril de 2024, a Justiça concedeu prisão domiciliar por 180 dias a Chico Ferreira, por questões médicas. Poucos meses depois, em 30 de julho, ele foi encontrado morto no banheiro do apartamento onde vivia, no bairro da Cidade Velha, em Belém.
Segundo as informações do boletim de ocorrência, a Central Integrada de Monitoramento Eletrônico (Cime), da Secretaria de Administração Penitenciária (Seap), comunicou ao escritório de advocacia que representa Chico Ferreira que a tornozeleira eletrônica que ele usava estaria sem sinal.
Após esse comunicado, um funcionário foi até o endereço para verificar o que teria acontecido e acabou encontrando Chico Ferreira morto no banheiro.
Situação Atual
2025 – Apenas um cumpre pena
Atualmente, em 2025, apenas José Augusto Marroquim de Sousa, o ex-fuzileiro naval responsável pela execução do crime, segue preso no Presídio Estadual Metropolitano I, em Americano, município de Santa Izabel do Pará.
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Relembre o Caso Savana


