
O criminoso procurado há mais tempo pela Justiça brasileira é paraense. O nome dele é Antonio Afonso Coelho, condenado por homicídio e alvo de um mandado de prisão expedido ainda em 1990, com validade até 2040 — um caso que atravessa quase quatro décadas sem desfecho. O crime aconteceu em Baião, município com menos de 50 mil habitantes às margens do rio Tocantins, no nordeste do Pará, e desde então o condenado jamais foi localizado.
A história remonta ao dia 12 de dezembro de 1989. Segundo os autos do processo, Coelho matou a tiros de espingarda Antonio da Silva Borges da Costa na Fazenda Piratininga, no quilômetro 50 da Rodovia Transcametá (BR-422), área que, à época, ainda enfrentava dificuldades de acesso e infraestrutura. A vítima morreu na hora. A motivação, de acordo com a Justiça, teria sido uma suposta ameaça de morte feita pela vítima — argumento que o juiz considerou “motivo fútil” para o crime.
Em 1990, a Justiça do Pará expediu mandado de prisão preventiva contra o acusado. A ordem nunca foi cumprida. Houve suspeita de que ele teria fugido para Minas Gerais, mas a informação jamais foi confirmada. Sem advogado constituído e sem apresentar versão própria dos fatos, Coelho foi julgado à revelia. Somente em junho de 2012 — 23 anos após o crime — o Tribunal do Júri de Baião o condenou.
Na sentença, o juiz Weber Lacerda Gonçalves destacou que o réu “agiu sem dar chance de defesa à vítima, já que atirou de repente, sem avisá-la e sem que esta pudesse reagir”, entendimento que contribuiu para o aumento da pena. Mesmo condenado pelo júri popular, Antonio Afonso Coelho nunca foi preso.
O mandado de prisão e a busca contínua
O mandado expedido tem validade de 50 anos, o que o torna oficialmente válido até 2040. Se ainda estiver vivo, o foragido completou 71 anos recentemente. Seu nome figura como o mais antigo entre quase 300 mil mandados de prisão pendentes no país, um retrato das dificuldades históricas de cumprimento de ordens judiciais no Brasil.
Na extensa lista de procurados também aparecem nomes conhecidos nacionalmente, como o traficante André do Rap, ligado ao PCC, e o bicheiro Bernardo Bello, personagem de investigações e produções televisivas. Ainda assim, a maioria absoluta dos foragidos é formada por pessoas anônimas, que desapareceram no tempo e nas falhas estruturais do sistema de justiça criminal.
O paradoxo da Justiça em Baião
O caso de Baião expõe um paradoxo: enquanto o processo tramitou, foi julgado e resultou em condenação, a execução da pena jamais saiu do papel. Quase 37 anos depois do homicídio, a ordem de prisão segue ativa — um lembrete de que, no interior da Amazônia e em muitas regiões do país, a Justiça pode até demorar, mas insiste em não esquecer.


